02 abril, 2010

Pouco sabemos sobre as surpresas reservadas ao coração. Que bom! ‘Escrevo minha história a quatro mãos. ’E mais: sem poder olhar, o que se nos revela é apenas o que já passou. Qualquer coisa contrária a isso seria muita ilusão. Tantos dias queria seu beijo, tantos e tanto que, recordo, alguns dias me revirava, me contorcia pra não te beijar de surpresa... mas tudo bem, com esses dias de carência [as vezes mútua] a gente aprende a lidar.
Mas depois daquela noite sem dormir direito, depois daquele dia cansativo feito o diabo, e depois de ter visto você ,por motivos bobos, fazer um ou outro charminho, lá estava. Praia, noite, cheiro de nada. Não tirei os sapatos, você tirou as sandálias. No céu a lua ausente, e nenhuma nova ou super nova me dava o brilho atrasado. Não importava, era ótimo sentir você abraçada, queixo apoiado no meu ombro. Ah, a confusão seria ético não dizer, mas minha sinceridade inconveniente me impede de não citar, ainda que brevemente, o esforço descomunal que eu fiz pra, inutilmente, tentar fazer você me dizer alguma coisa. Mas você falava tanto quanto as estrelas que nós olhávamos à luz do luar oculto.
Mas quem precisa de luas, estrelas ou palavras quando se tem nuvens e mais nuvens e relâmpagos que cortam o horizonte distante? Portanto, acho que tudo que eu falei podia ter sido engolido pra mim mesmo. Ou não. Não importa. Abraçar você era tão carinho que as nuvens eram bonitas, era tão conforto que passou a dor de carregar minha mochila pesada por toda a tarde.
De repente um poeta saído de sei lá qual formigueiro me fez reforçar a crença de que Deus existe e de que a ficção nunca anda muito à frente da realidade. Chegou quieto, e depois de assustar a gente desandou a falar loucamente. Fez você rir, um pouco por constrangimento. Disse-me pra cuidar de você – precisava? – parafraseou Renato Russo, desejou Feliz Natal! E foi embora depois de receber sua mínima paga. Tudo normal, nada normal. Tudo agradável, muito agradável.
E de repente veio suave, sem pretensão, sendo quase não sendo, vagaroso, trilha sonora silenciosa [ou pelo menos pareceu, porque eu esqueci dos carros, dos passantes, do casal da areia, do vendedor de água de côco, do mundo] e tímido: o beijo.
E um dia depois, depois de um dia inteiro pensando na música que poderia ser minha trilha de hoje, por acaso, depois de passar o dia fazendo mil e uma coisas e sofejando músicas quaisquer, descobri uma, por acaso, como o beijo. Ou não.
Realejo
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli / Danilo Souza

Será que a sorte virá num realejo,
Trazendo o pão da manhã
A faca e o queijo?
Ou talvez um beijo teu
Que me empreste a alegria,
que me faça juntar
Todo resto do dia, meu café, meu jantar
Meu mundo inteiro
que é tão fácil de enxergar. E chegar.

Nenhum medo que possa enfrentar
Nem segredo que possa contar
Enquanto é tão cedo
Tão cedo

Enquanto for um berço meu
Enquanto for um terço meu
Serás vida bem vinda
Serás viva bem viva
Em mim

Será que a noite vira num vilarejo
vejo a ponte que levara o que desejo
admiro o que há de lindo e o que há de ser: você

Enquanto for um berço meu
Enquanto for um terço meu
Serás vida bem vinda
Serás viva bem vivaEm mim

"Os opostos se distraem
Os dispostos se atraem"